A crise infinita da Warner: como a DC virou um reboot permanente.
Mais de dez anos depois do início do chamado “universo compartilhado” da DC nos cinemas, o saldo da empreitada parece ter saído diretamente de um estudo acadêmico sobre como NÃO administrar uma franquia bilionária. O projeto começou cercado de expectativa: Zack Snyder comandando a visão criativa, Christopher Nolan envolvido na produção e a promessa de finalmente construir algo equivalente ao sucesso da Marvel. O problema é que o Snyder tinha umas ideias meio biruleibe, e rapidamente a coisa começou a desandar.
Após decisões criativas polêmicas e filmes que dividiram público e crítica, a rejeição de parte da fanbase começou a crescer. No meio do caos, a Warner foi adquirida pela AT&T, iniciando uma dança das cadeiras corporativa que mudou completamente os rumos da franquia. Afinal, os novos donos queriam lucro — não um Superman depressivo discutindo existencialismo em câmera lenta.
Walter Hamada, então presidente da Warner Pictures, aparentemente ficou inconformado porque Batman vs Superman não arrecadou mais que Titanic e Avatar. A solução encontrada foi substituir Zack Snyder por Joss Whedon em Liga da Justiça e colocar Geoff Johns — veterano dos quadrinhos e então chefão da DC Comics — como peça central da reestruturação. O plano parecia razoável até Geoff Johns se mostrar outro biruleibe, só que na versão “Superman Injustice”, além de acumular rumores nada agradáveis de bastidores.
A partir dali, Hamada e Johns decidiram que os pilares do novo universo seriam… o Batman nostálgico dos anos 80 e a Supergirl. Por quê? Difícil dizer. Talvez porque fossem dois tiozões convencidos de que millennials sonham em consumir exatamente as mesmas referências que eles consumiam em 1987.
O resultado foi um amontoado de filmes sem conexão entre si, porque a nova estratégia aparentemente consistia em “vai lançando aí que depois a gente vê no que dá”. Qual era o plano final? Excelente pergunta. Nem eles sabiam. Mas tinham certeza de que, em algum momento, tudo culminaria em algum grande evento cósmico imaginário que existia apenas numa lousa esquecida dentro da Warner.
Com o passar dos anos, o chamado DCEU virou piada recorrente na internet e conseguiu algo impressionante: cansar até os fãs mais pacientes. Vieram então Aves de Rapina, a Mulher-Maravilha sequestradora e abusadora de homens, o interminável desenvolvimento de Flash — trocando de diretor numa velocidade comparável à troca de ministros da Saúde no governo Bolsonaro — e o caos envolvendo o Batman de Ben Affleck, que abandonou primeiro a direção e depois o próprio papel, enquanto travava batalhas pessoais contra o alcoolismo.
A solução encontrada pela Warner foi simples: fazer OUTRO Batman. Dessa vez com Robert Pattinson, eternamente conhecido como “Edward do Crepúsculo”, mas sem ligação nenhuma com o universo principal. Organização e planejamento: nota 0.
Anos depois, surgiu mais um protagonista inesperado da bagunça: The Rock. Após passar mais de uma década tentando tirar Adão Negro do papel, o ator aparentemente acreditou que poderia se tornar o centro do universo DC e “mudar a hierarquia do poder”. O resultado foi uma absolute porcaria que fracassou nas bilheterias e ainda produziu um dos momentos mais constrangedores da história recente de Hollywood: Henry Cavill anunciando triunfalmente seu retorno como Superman… apenas para, poucos dias depois, admitir publicamente que não voltaria mais ao papel. Um legítimo caso de “errei, fui moleque” em escala industrial.
Esse episódio serviu como o prego definitivo no caixão do DCEU.
Em seguida, a AT&T fundiu a Warner com a Discovery e colocou David Zaslav no comando da empresa. Ao observar os destroços fumegantes da franquia, a nova gestão decidiu reiniciar tudo do zero, contratando James Gunn para liderar a nova fase da DC e provocando a saída de Walter Hamada — um acontecimento recebido por muita gente com o entusiasmo de quem finalmente vê o ônibus chegar depois de horas no ponto.
Enquanto o novo universo era prometido nas redes sociais com imagens, sinopses, anúncios e interação constante com fãs, a Warner ainda precisava lançar os últimos filmes do universo antigo — mesmo já tendo anunciado oficialmente que aquele universo estava morto. O resultado foi uma espécie de assassinato coletivo de bilheterias, reputações e personagens. Filmes prontos foram cancelados, produções engavetadas e a marca DC terminou ainda mais desgastada.
A situação ficou tão absurda que parecia um roteiro escrito por alguém em surto: era como assistir ao nascimento de um filho durante o velório do outro filho que você mesmo matou.
O novo universo começou oficialmente com uma série animada estrelada por personagens que praticamente ninguém conhece — uma escolha extremamente “James Gunn”. Ou seja: só fã hardcore sabia da existência da série, enquanto o público geral sequer entendia que aquilo inaugurava o novo universo cinematográfico. E, para piorar, agora o espectador precisa assistir desenho, série, spin-off e provavelmente ouvir podcast pra entender o que está acontecendo. Se perdeu alguma coisa, pau no seu bilolo.
Na sequência veio o novo filme do Superman, que dividiu opiniões mas conseguiu desempenho razoável nas bilheterias, seguido da segunda temporada de Pacificador — série originalmente criada dentro do universo antigo, mas que agora misteriosamente também faz parte do novo. Um multiverso corporativo onde até a contabilidade parece confusa.
A estratégia atual da DC consiste em apostar em personagens classe B, C e às vezes até categoria “quem?”, alguns funcionando surpreendentemente bem, outros nem tanto. O problema é que nenhum deles consegue sustentar sozinho o peso do colapso administrativo crônico da Warner.
E a cereja do bolo: a Warner pode ser vendida novamente. Dependendo de quem assumir o controle, existe o risco real de mais um reboot, mais mudanças de direção criativa, novos conflitos internos e, eventualmente, James Gunn abandonando o barco no meio da viagem.
Depois de mais de uma década, bilhões investidos e incontáveis reestruturações, o maior superpoder da DC nos cinemas talvez tenha sido transformar cada novo começo em mais um recomeço.

