Quando Ragnarok dominava as lan houses brasileiras

Autor Ranieri Abimael

Ranieri Abimael

Fundador • NeoGeekHub


Existe uma geração inteira que talvez nunca consiga explicar exatamente o que sentia quando entrava em uma lan house nos anos 2000, os corujões, esperar uma hora ou duas ate em pé pra liberar um computador e só então ter sua hora ou ate aquela meia hora sofrida de diversão.

Não era apenas sobre jogar.

Era sobre pertencer a algum lugar.

Hoje, temos internet rápida, jogos gigantescos, gráficos absurdos e milhares de jogadores online o tempo inteiro. Mas, estranhamente, muita gente sente que os games modernos perderam alguma coisa no caminho.

Talvez porque naquela época tudo parecia mais humano.

E poucos jogos representam isso tão bem quanto Ragnarok Online.

Principalmente no Brasil.

A era das lan houses

Antes dos consoles online dominarem o mercado e antes de praticamente toda casa ter internet boa, existia um lugar que virou quase um ponto de encontro obrigatório para milhares de jovens:

as lan houses.

Era nelas que muita gente passava tardes inteiras depois da escola.

Você chegava, colocava:

  • 1 real meia hora
  • 2 reais uma hora

e aquilo já parecia suficiente para viver uma aventura gigantesca.

O barulho dos teclados, os monitores antigos, ventiladores tentando resfriar dezenas de computadores e aquele cheiro característico de lan house acabaram virando parte da memória de muita gente.

E no meio daquela bagunça, existia um jogo que parecia dominar tudo:

Ragnarok Online.

O Ragnarok da nossa memória

Muita gente hoje lembra apenas do Ragnarok oficial da Level Up!, mas existia outro lado daquela época.

Os servidores privados.

E era ali que a internet parecia quase um território secreto.

Muitos jogadores brasileiros acabavam entrando em servidores coreanos estranhos, com traduções quebradas, fóruns aleatórios e sistemas completamente diferentes.

Alguns servidores eram absurdamente acelerados.

Você matava um Poring e simplesmente ganhava dezenas de níveis.

Era caótico. Era desbalanceado. Mas era divertido demais.

E talvez justamente porque tudo parecia meio proibido, meio improvisado e meio desconhecido, a experiência acabava sendo ainda mais marcante.

Cada amigo virava uma classe diferente

Uma das coisas mais especiais daquela época era que os MMORPGs antigos criavam uma sensação de evolução coletiva.

Hoje, muitos jogos parecem experiências individuais conectadas artificialmente pela internet.

Naquela época era diferente.

Você e seus amigos literalmente construíam jornadas juntos.

Um virava:

  • Cavaleiro
  • Mercenário
  • Sacerdote
  • Mago
  • Caçador

e cada escolha parecia importante.

Os grupos se separavam para evoluir personagens, procurar itens, fazer quests ou simplesmente descobrir mapas novos.

Depois de horas, todo mundo voltava para Prontera ou algum ponto combinado apenas para mostrar:

  • equipamentos novos
  • habilidades
  • cartas raras
  • níveis conquistados

E aquilo parecia gigantesco.

Porque existia esforço real envolvido.

Os MMORPGs antigos criavam comunidades reais

Talvez esse seja o maior motivo pelo qual tanta gente ainda sente saudade daquela época.

Os jogos online antigos não eram apenas jogos.

Eles eram comunidades.

As pessoas:

  • faziam amizades reais
  • criavam guildas
  • marcavam horários
  • ajudavam jogadores iniciantes
  • conversavam por horas

Existia uma sensação constante de convivência.

Até o PvP parecia diferente.

Os jogadores conhecidos dos servidores acabavam virando quase pequenas celebridades locais.

Todo mundo sabia:

  • quem era forte
  • quem dominava PvP
  • quem era respeitado
  • quem era tóxico

Hoje, muitos jogos possuem milhões de jogadores.

Mas raramente criam esse tipo de conexão.

A limitação fazia tudo parecer maior

Existe uma coisa curiosa sobre aquela época e essas limitações:

elas acabavam aumentando a emoção.

A internet era lenta.

O tempo na lan house era limitado.

Os computadores travavam.

As informações eram difíceis de encontrar.

E justamente por isso, cada pequena conquista parecia muito maior.

Hoje temos acesso praticamente infinito a:

  • jogos
  • streamings
  • gameplays
  • guias
  • vídeos

Mas talvez exatamente por isso muitas experiências tenham perdido parte da magia.

Naquela época, descobrir alguma coisa sozinho parecia uma aventura.

Prontera virou uma memória coletiva

Mesmo pessoas que não jogam Ragnarok há mais de dez anos provavelmente ainda conseguem lembrar:

  • da música de Prontera
  • dos Porings
  • das lojinhas espalhadas
  • das asas de anjo
  • das cidades lotadas

Porque Ragnarok não marcou apenas pela jogabilidade.

Ele marcou pela atmosfera.

Os gráficos simples, as artes em 2D, os sprites e a trilha sonora criavam um mundo extremamente confortável e vivo.

Parecia um lugar para ficar.

Não apenas um jogo para terminar.

Talvez nunca mais exista outra época igual

Hoje, a indústria dos games mudou completamente.

Os MMORPGs modernos focam em:

  • battle pass
  • microtransações
  • progressão acelerada
  • automatização
  • conteúdo rápido

E talvez por isso muita gente sinta que existe algo faltando.

Porque os MMORPGs antigos não eram feitos apenas para consumir conteúdo.

Eles eram feitos para viver dentro deles.

Talvez seja exatamente por isso que tanta gente ainda sente saudade das lan houses, do Ragnarok e daquela internet mais simples.

Porque no fim das contas, não era apenas sobre os gráficos ou os jogos.

Era sobre uma sensação que muita gente nunca conseguiu encontrar novamente.

E talvez essa seja a verdadeira nostalgia:

não sentir falta apenas do jogo…

mas sentir falta da pessoa que éramos naquela época.

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